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Sequelas da Covid-19: a vida não voltou ao normal após a alta hospitalar

Pacientes relatam dificuldades mesmo após vencerem a fase aguda da doença

por Saúde Debate

13/11/2020
Sobre: Pacientes relatam sequelas da Covid-19, mesmo após tratamento no hospital ou mesmo em casa
Créditos: Freepik

Cristiane Barbieri, de 40 anos, ainda lida com as consequências da Covid-19, mesmo após a alta hospitalar. Ela ficou 22 dias internada, sendo 18 deles em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). O tratamento continua para amenizar as sequelas da Covid-19 e também os efeitos de um período longo de internamento. Cristiane ainda sente dificuldades respiratórias e precisa tratar problemas no fígado, resultado do tratamento contra a doença. 

 

“Eu tive arritmia, fiz tratamento de embolia pulmonar (no período em que esteve internada). Fiquei inchada e precisei fazer tratamento para trombose. A Covid-19 não é apenas uma doença respiratória”, contou Cristiane, que trabalha na unidade da Cocamar em Rolândia, no interior do Paraná. Ela foi diagnosticada com a infecção causada pelo novo coronavírus depois de apresentar sintomas como febre, gripe e tosse. O exame que detectou a Covid-19 foi feito depois de o quadro de saúde piorar bastante. Cristiane sentiu falta de ar e passou por momentos de angústia em virtude disso, até ser levada para a UTI.

 

Ela não está sendo a única a lidar com sequelas da Covid-19 após a alta hospitalar. E também não são apenas relatos de pacientes. Já existem estudos apontando problemas neste sentido, além de pesquisas que conduzidas neste momento e que acompanharão pacientes por um período para verificar os efeitos prolongados da doença.

 

A fisioterapeuta e doutora em Tecnologia em Saúde Rafaella Stradiotto Bernardelli, pesquisadora e coordenadora de metodologia científica do Centro de Estudos e de Pesquisas em Terapia Intensiva (CEPETI), de Curitiba (PR), está envolvida em trabalhos nesta área. De acordo com ela, em um primeiro momento, os esforços se voltaram para o combate à Covid-19 e à mortalidade da doença. Agora, alguns estudos levantam as hipóteses de sequelas da Covid-19, tanto em pacientes graves quanto naqueles que apresentaram sintomas leves.

 

“Ainda é difícil afirmar algum padrão sobre sequelas, até porque temos uma dificuldade de encontrar padrões para a Covid-19 como um todo. Ainda não é possível afirmar, com base em determinados sinais, que o paciente terá tais sequelas. Ou mesmo se ele vai apresentar ou não”, explica. 


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Sequelas da Covid-19: quais são

 

Rafaella conta que entre as pesquisas desenvolvidas no CEPETI relacionadas com Covid-19 estão trabalhos sobre os cuidados no pós-alta e também sobre o indicador Daly, da Organização Mundial da Saúde (OMS), que relaciona os anos de vida perdidos com a doença ajustados com os anos vividos com incapacidade gerada por ela. Os pacientes que fazem parte deste estudo serão acompanhados por um ano.

 

Com base em observações e também em outros estudos, a pesquisadora conta que pacientes que tiveram uma versão mais grave da doença, mesmo que não tenham sido intubados, relatam sequelas físicas após a alta hospitalar. Uma bastante comum é a fibrose pulmonar, quando áreas do pulmão ficam fibrosadas e perdem funcionalidade, dificultando a respiração. Neste caso, é uma consequência permanente. 

 

“Também temos percebido outras doenças associadas. Uma sequela bastante comum é a fadiga crônica: as pessoas ficam com um cansaço, independentemente se a doença foi grave ou não. E há pacientes que por meses se arrastam nessa fadiga, que não necessariamente é uma falta de ar, mas uma dificuldade de fazer as atividades, de voltar à rotina, devido a um cansaço generalizado”, descreve Rafaella. 


(Foto: Freepik)

 

Doenças relacionadas: paciente lidando com consequências da Covid-19

 

De acordo com ela, também podem acontecer doenças relacionadas, como problemas renais ou comprometimento das funções hepáticas. Em quadros menos graves da Covid-19, também há observações de tendência ao diabetes em pacientes que não tinham essa doença ou que não sabiam dessa condição e desenvolveram alteração pancreática. “Estamos investigando ainda. Ninguém sabe de onde vem essa resistência à insulina ou se a situação pode se normalizar posteriormente”, revela a pesquisadora.

 

Rafaella Bernardelli ainda cita outras consequências para os pacientes após a alta hospitalar, relacionadas com fatos que podem acontecer durante a fase aguda da doença, como infartos e acidente vascular cerebral. O paciente também passa por tratamento para essas situações e pode sofrer com as sequelas desses eventos. 

 

“Ainda há problemas como ansiedade e de sono, que estão relacionados ao ambiente no qual a pessoa esteve. São pessoas que sobreviveram, e ainda podem ter perdido familiares em pouco tempo. As sequelas do estresse pós-traumático também estão presentes nesses pacientes”, alerta Rafaella, declarando que a literatura também cita casos de lapsos de memória pós-Covid-19. “Ainda se investiga se é relacionado à doença ou ao trauma psicológico. Mas já há publicações nesse sentido, inclusive com pacientes que sequer foram internados”, enfatiza. 

 

Outra situação que pode aparecer em casos de Covid-19 é a síndrome de Guillain Barré, que afeta o sistema nervoso periférico temporariamente, gerando paralisia em todo o corpo. “É uma doença auto imune. Não é exclusiva a Covid-19, e pode acontecer em outras doenças virais”, esclarece a pesquisadora. De acordo com ela, neste caso, há relatos da síndrome em pacientes que tiveram sintomas leves da Covid-19, e que até mesmo passaram por tratamento em casa. 


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Assistência ao paciente com sequelas da Covid-19

 

Rafaella frisa a importância dessas pesquisas, para entender o processo das sequelas, tanto físicas quanto as psíquicas, e quanto tempo essas consequências podem durar. “Nossa preocupação também é com o pós-pandemia e a assistência à saúde desses pacientes. Até o momento, houve esforços para conter a evolução da pandemia e evitar a mortalidade, mas precisamos nos preocupar com muitos desses pacientes por um período longo. Por isso, é essencial munir a assistência primária em saúde com conhecimento sobre isso. As unidades de saúde vão receber - e já estão recebendo - esses pacientes com essas situações, que podem se tornar crônicas”, avalia.


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